Por quase quatro décadas, DOC e TED foram os dois pilares das transferências interbancárias no Brasil. Criados pelo Banco Central em momentos diferentes da história econômica brasileira — o DOC em 1985, na era Collor, e o TED em 2002, já no governo FHC/Lula — ambos definiram como milhões de brasileiros movimentavam dinheiro entre contas de bancos diferentes.

Em fevereiro de 2024, o DOC e a TEC (Transferência Especial de Crédito) foram extintos pela Febraban. O TED permanece ativo, mas sua dominance está em queda. O que restou desses dois instrumentos? O PIX, que em 2024 superou a soma de todas as outras modalidades de pagamento juntas.

Este estudo reconstitui a história completa dessas transferências — como funcionavam, por que foram criados, quanto movimentavam e por que o tempo finalmente passou por cima deles.

O que eram DOC e TED

DOC — Documento de Ordem de Crédito

O DOC (Documento de Ordem de Crédito) foi criado em 1985 pelo Banco Central do Brasil, por meio da Circular nº 703, como uma modalidade de transferência interbancária acessível. A ideia era formalizar a movimentação de valores entre contas de bancos diferentes de forma eletrônica e segura — uma evolução em relação aos cheques físicos que dominavam as transações da época.

O DOC operava com um limite máximo de R$ 4.999,99 e funcionava mediante compensação, da mesma forma que os cheques. A liquidação era processada no SILOC (Sistema de Liquidação de Créditos), um sistema de compensação diferida operado pela CIP (Câmara Interbancária de Pagamentos). O resultado: o saldo ficava disponível na conta do beneficiário apenas no dia útil seguinte (D+1).

Se o DOC fosse emitido fora do horário bancário, a transferência era agendada para o próximo dia útil — e se fosse em dia não útil na cidade do destinatário, a espera poderia ser ainda maior. Era um sistema funcional, mas lento.

TED — Transferência Eletrônica Disponível

Em 18 de abril de 2002, o Banco Central instituiu a TED (Transferência Eletrônica Disponível) por meio da Circular nº 3.115. A nova modalidade foi criada para suprir a principal limitação do DOC: a velocidade.

Enquanto o DOC levava no mínimo um dia útil para creditar o valor, a TED deveria ser liquidada em até 30 minutos após a ordem, com o crédito na conta do beneficiário em até 60 minutos adicionais — um prazo máximo total de 90 minutos. A liquidação era feita via STR (Sistema de Transferência de Reservas) ou SITRAF (Sistema de Transferência de Fundos), ambos sistemas de liquidação em tempo real ou quase-tempo real.

Inicialmente, a TED tinha um valor mínimo de R$ 5 milhões, destinada a grandes movimentações financeiras. Em janeiro de 2016, essa restrição foi removida — passou a aceitar qualquer valor, incluindo valores pequenos como R$ 50 ou R$ 100.

TEC — Transferência Especial de Crédito

A TEC (Transferência Especial de Crédito) era uma variante destinada exclusivamente a empresas para pagamento de benefícios a funcionários — salários, FGTS, vale-refeição e similares. Regulamentada em 2017, a TEC compartilhava a infraestrutura da TED mas com regras específicas para o contexto corporativo. Foi extinta junto com o DOC em fevereiro de 2024.

Como funcionava — a infraestrutura por trás

Para entender por que o DOC e a TED tinham prazos tão diferentes, é preciso olhar para a infraestrutura de pagamentos brasileira — o Sistema de Pagamentos Brasileiro (SPB).

O SILOC e o DOC

O DOC operava via SILOC (Sistema de Liquidação de Créditos), um sistema de compensação diferida (deferred net settlement). Nele, as transações se acumulavam ao longo do dia e eram compensadas em lote no final do expediente. As posições líquidas eram então liquidadas via STR. Era um modelo eficiente para a época, mas intrinsecamente lento — o crédito só podia ser efetivado no dia útil seguinte.

O STR/SITRAF e o TED

A TED, por outro lado, operava via STR (Sistema de Transferência de Reservas) ou SITRAF (Sistema de Transferência de Fundos). O STR é o sistema de liquidação em tempo real (RTGS — Real-Time Gross Settlement) do Banco Central, estabelecido pela Circular 3.100 em março de 2002. Cada transferência é processada e liquidada individualmente, uma a uma, em tempo real.

O SITRAF é um sistema privado operado pela CIP, designado como sistemicamente importante pelo Banco Central. Ele funciona como um RTGS “quase-real-time” — as transações são liquidadas rapidamente, mas não instantaneamente como no STR.

O STR é o coração do sistema financeiro brasileiro. Todas as outras infraestruturas de compensação e liquidação — SILOC, COMPE, SELIC — finalizam suas posições via STR, que liquida em dinheiro do Banco Central.

Livro-caixa (book transfer)

Além de DOC e TED, existe o book transfer — a transferência entre contas da mesma instituição financeira. Não há norma específica do Banco Central para essa operação, que é regulamentada internamente por cada banco. É instantânea e geralmente gratuita, pois não envolve liquidação interbancária.

Diagrama mostrando a infraestrutura do Sistema de Pagamentos Brasileiro: STR liquida TED e posições líquidas, SILOC compensa DOC em lote, SPI liquida PIX em tempo real
Infraestrutura do SPB: STR para TED (tempo real), SILOC para DOC (compensação diferida), SPI para PIX (instantâneo). Fonte: BCB.

DOC e TED lado a lado

A tabela abaixo resume as diferenças fundamentais entre as duas modalidades:

Característica DOC TED
Criação 1985 (Circular 703) 2002 (Circular 3.115)
Sigla Documento de Ordem de Crédito Transferência Eletrônica Disponível
Valor mínimo R$ 1,00 R$ 1,00 (sem mínimo desde jan/2016)
Valor máximo R$ 4.999,99 Sem limite
Liquidação D+1 (dia útil seguinte) D+0 (mesmo dia, até 90 min)
Sistema SILOC (compensação em lote) STR/SITRAF (tempo real)
Horário limite ~22h (varia por banco) ~17h (varia por banco)
Fins de semana Não opera Não opera
Custo para PF Tarifa bancária (variável) Tarifa bancária (variável)
Tipo C/D Sim (C = titular diferente, D = mesma titularidade) Sim (C = titular diferente, D = mesma titularidade)
Informações obrigatórias Banco, agência, conta, CPF/CNPJ Banco, agência, conta, nome, CPF/CNPJ
Reversível Não Somente antes da liquidação
Status (2026) Extinto (fev/2024) Ativo

As tarifas

Tanto o DOC quanto o TED cobravam tarifas definidas por cada instituição financeira. Não havia um valor fixo — cada banco definia seu próprio preço. Em média, a tarifa ficava em torno de R$ 10 a R$ 20 por operação, independentemente do valor transferido.

Com a chegada do PIX, que é gratuito para pessoas físicas, as tarifas de DOC e TED perderam qualquer competitividade. Mesmo para empresas, o PIX cobra tarifas significativamente menores.

Os códigos de devolução

Quando uma transferência via DOC ou TED era devolvida — por erro nos dados, conta inexistente ou outros motivos — o sistema retornava um código numérico indicando a causa. Alguns dos mais comuns:

Código Descrição
40 Moeda inválida
51 Divergência no valor recebido
52 Recebimento efetuado fora do prazo
56 Transferência insuficiente para a finalidade indicada
57 Divergência ou informação obrigatória não preenchida
62 DOC “D” — divergência no CPF/CNPJ
66 DOC “D” — de conta individual para conjunta (ou vice-versa)
67 DOC “D” — sem indicação do tipo de conta

Em todos os casos de devolução, a tarifa paga não era restituída — uma das críticas mais comuns dos usuários.

O volume movimentado

DOC: a longa agonia

O DOC foi criado em 1985 como a principal forma de transferência interbancária. Durante décadas, foi o instrumento mais utilizado para valores pequenos — pagamentos de aluguel, contas, pequenas compras. Mas com a digitalização bancária e o crescimento do internet banking, sua participação foi caindo gradualmente.

Em 2022, o DOC somou 59 milhões de operações, representando apenas 3,7% do total de 63 bilhões de transações financeiras realizadas no país. Para contextualizar: o PIX, que tinha apenas 2 anos de existência, já processava 24 bilhões de transações — 400 vezes mais.

Ano Transações DOC (milhões) Participação no total
2020 ~500 (estimativa) ~6%
2021 ~200 (estimativa, pós-PIX) ~2,5%
2022 59 0,09% (de 63 bi)
2023 ~15 (estimativa, antes de extinção) <0,1%
2024 0 (extinto em fevereiro) —

Fonte: Febraban, BCB.

TED: resistindo ao tempo

O TED, ao contrário do DOC, manteve relevância mesmo após a chegada do PIX. Em 2024, o TED processou 821 milhões de transações — uma queda significativa em relação aos anos anteriores, mas ainda expressiva.

O dado surpreendente é o volume financeiro: em 2024, o TED movimentou R$ 43,1 trilhões, contra R$ 26,9 trilhões do PIX. Ou seja, embora o PIX seja mais usado em número de transações, o TED ainda é preferido para movimentações de maior valor — operações imobiliárias, pagamentos corporativos, transferências institucionais.

Modalidade Transações 2024 Volume 2024
PIX 63,8 bilhões R$ 26,9 trilhões
TED 821 milhões R$ 43,1 trilhões
Cartão de crédito 19,8 bilhões R$ 2,8 trilhões
Boleto 4,2 bilhões R$ 6,2 trilhões
DOC — (extinto) —
Cheque 125 milhões —

Fonte: Febraban (com base em dados BCB e ABECS), maio 2025.

A evolução completa

Gráfico de barras mostrando a evolução do número de transações de DOC, TED e PIX de 2020 a 2024
Evolução das transações: DOC (vermelho), TED (amarelo), PIX (verde), 2020–2024. Fonte: Febraban, BCB.

A história é clara: o PIX não apenas substituiu o DOC — ele redefiniu o que os brasileiros esperam de uma transferência bancária.

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Por que o PIX venceu

O PIX foi lançado em 16 de novembro de 2020 pelo Banco Central do Brasil. Em menos de 2 meses, já superava o DOC em número de transações. Em janeiro de 2021, ultrapassou o TED. Em maio de 2021, superou a soma de todos os outros meios de pagamento.

Os números de 2025 consolidam a vitória:

Métrica Valor (2025)
Transações anuais ~80 bilhões (+25,7% a.a.)
Volume financeiro R$ 35 trilhões (+33,8% a.a.)
Usuários PF 170 milhões (80% da população)
Usuários PJ 12 milhões de empresas
Recorde diário 313 milhões de transações (05/12/2025)
Transações mensais (jan/2026) 7 bilhões
Volume mensal (out/2025) R$ 3 trilhões (3 PIBs mensais)

Fonte: BCB — PIX em números; Relatório de Gestão do PIX 2023-2025.

O que diferencia o PIX de DOC e TED:

Característica DOC/TED PIX
Velocidade D+1 (DOC) ou até 90 min (TED) Até 10 segundos
Custo PF R$ 10–20 por operação Gratuito
Disponibilidade Dias úteis, horário bancário 24/7/365
Dados necessários Banco, agência, conta, CPF/CNPJ Chave PIX (CPF, e-mail, telefone ou aleatória)
Agendamento Sim Sim
Cobrança com vencimento Não Sim (PIX Cobrança)
Saque em caixa/loja Não Sim (PIX Saque)
QR Code Não Sim

A cronologia do fim

O encerramento do DOC e da TEC seguiu um cronograma definido pela Febraban e pelos bancos:

Data Evento
4 de maio de 2023 Febraban anuncia o fim do DOC e TEC até fevereiro de 2024
2023 Uso do DOC cai para menos de 1% das transferências
15 de janeiro de 2024 Último dia para emissão e agendamento de DOC e TEC
29 de fevereiro de 2024 Encerramento definitivo: últimos agendamentos processados; DOC e TEC extintos
março de 2024 TED permanece ativo como única modalidade interbancária de transferência remanescente

O presidente da Febraban, Isaac Sidney, declarou à época: “Com o surgimento do PIX e a alta movimentação bancária com menores taxas, tanto a TEC quanto o DOC deixaram de ser a primeira opção dos clientes, que têm dado preferência ao PIX, por ser gratuito e instantâneo.”

TED: por que sobreviveu

Enquanto DOC e TEC foram extintos, o TED permanece ativo. A razão é simples: o TED atende a uma necessidade que o PIX ainda não substituiu completamente — transferências de alto valor.

Em 2024, o TED movimentou R$ 43,1 trilhões — valor 60% superior ao do PIX (R$ 26,9 trilhões). Isso acontece porque:

  1. Empresas preferem o TED para pagamentos de fornecedores, folha de pagamento e transferências institucionais, onde a formalização e os comprovantes detalhados são importantes
  2. Limites de valor: embora o PIX não tenha limite técnico, muitos bancos impõem limites diários para PIX (geralmente entre R$ 1.000 e R$ 100.000 para PF). Para transferências acima desses limites, o TED continua sendo a opção
  3. Exigências contábeis: algumas empresas precisam de comprovantes específicos que o TED fornece e o PIX não
  4. Regulamentação: certas operações regulamentadas exigem transferências via TED

O BIS (Bank for International Settlements) observou em seu relatório sobre pagamentos no Brasil que o TED cresceu a uma taxa anual de 15,4% entre 2005 e 2009, atingindo cerca de 300 mil transferências diárias. Embora o número de transações tenha caído com o PIX, o volume financeiro permanece alto porque o TED se tornou o instrumento de grandes valores do sistema financeiro brasileiro.

Legado e referencial teórico

A corrida pela velocidade

A história de DOC, TED e PIX ilustra perfeitamente o conceito que o BIS denominou de “a corrida pela velocidade nos pagamentos” (The quest for speed in payments). Bech, Shimizu e Wong (2017), em estudo publicado no BIS Quarterly Review, documentaram como os sistemas de liquidação em tempo real (RTGS) emergiram nos anos 1980 e se tornaram padrão global em 30 anos, seguidos pelos sistemas de pagamentos instantâneos (fast payments) a partir dos anos 2000.

Geração Período Exemplo Brasil Velocidade
Compensação em lote Anos 1970–2000 DOC (1985) via SILOC D+1
RTGS (varejo) Anos 2000–2010 TED (2002) via STR/SITRAF D+0 (até 90 min)
Pagamentos instantâneos Anos 2020+ PIX (2020) via SPI Até 10 segundos

O CPMI (Committee on Payments and Market Infrastructures) do BIS publicou em 2021 o relatório “Developments in retail fast payments and implications for RTGS systems”, que analisa como os sistemas de pagamentos instantâneos (FPS) impactam as infraestruturas RTGS existentes. O caso brasileiro é citado como exemplo de transição bem-sucedida: o PIX, operado via SPI (Sistema de Pagamentos Instantâneos), é um sistema RTGS que liquida transações interbancárias em tempo real, 24/7.

A relação com CBDCs

O BIS Papers No. 151 (2024), “Central bank digital currencies and fast payment systems: rivals or partners?”, de Aurazo, Frost, Kosse et al., explora a relação entre CBDCs e sistemas de pagamentos instantâneos. Segundo os autores, a maioria dos bancos centrais acredita que FPS e CBDCs podem coexistir, servindo a propósitos diferentes. O caso brasileiro é relevante: o Drex (CBDC brasileira) utiliza a mesma infraestrutura DLT e busca se integrar ao ecossistema PIX, não substituí-lo.

A infraestrutura que ficou

O legado de DOC e TED vai além das transferências em si. Eles ajudaram a construir a infraestrutura que sustenta o sistema financeiro brasileiro hoje:

  • STR: o sistema RTGS do Banco Central, que liquidava as TEDs, continua sendo o hub do SPB
  • SILOC: o sistema de compensação que processava os DOCs ainda opera para boletos e outras compensações
  • SITRAF: o sistema privado de transferência de fundos permanece como infraestrutura sistemicamente importante
  • SPI: o sistema de pagamentos instantâneos, criado para o PIX, é a evolução natural do STR para o varejo

O BIS descreveu o STR como “o coração do sistema financeiro brasileiro” (BIS CPSS, 2011), pois todas as outras infraestruturas de compensação e liquidação finalizam suas posições viaSTR.

O sistema de pagamentos hoje

Com a extinção do DOC e da TEC, o sistema de pagamentos brasileiro se organiza em torno de poucos pilares:

Infraestrutura Função Operador
STR Liquidação em tempo real (RTGS) — grandes valores, interbancário Banco Central
SPI Pagamentos instantâneos (PIX) — varejo, 24/7 Banco Central
SILOC Compensação diferida — boletos, DOCs remanescentes CIP
SITRAF Transferência de fundos — quase-tempo real CIP
COMPE Compensação de cheques Banco Central
SELIC Liquidação de títulos públicos Banco Central
B3 Liquidação de valores mobiliários e derivativos B3

O SPI (Sistema de Pagamentos Instantâneos) é o mais recente e o mais dinâmico. Segundo o relatório anual do SPI (2023), ele é um sistema RTGS operado pelo Banco Central que liquida transações interbancárias do PIX em tempo real. Após a liquidação, a transação é final e irrevogável.

Nota de atualização

Nota de atualização (set/2026): Todos os dados de volume e valor referem-se a informações oficiais do Banco Central do Brasil e da Febraban, disponíveis até agosto de 2026. Os dados de transações PIX incluem liquidadas no SPI e nos livros dos participantes. Os valores do TED referem-se a fontes CIP-SITRAF e STR. Para dados atualizados, consulte BCB — Estatísticas de meios de pagamento e BCB — PIX em números.


DOC e TED foram mais do que meios de pagamento — foram a espinha dorsal da movimentação financeira brasileira por quase 40 anos. O DOC, que começou como a principal ferramenta de transferência interbancária em 1985, viu seu papel ser gradualmente corroído pela digitalização e, finalmente, pelo PIX. O TED, mais veloz e versátil, sobreviveu e continua ativo, atendendo a um nicho de grandes valores que o PIX ainda não conquistou completamente.

A lição é clara: no sistema financeiro, a velocidade sempre vence. Como demonstraram Bech, Shimizu e Wong (2017), a evolução dos pagamentos segue um padrão previsível — da compensação em lote ao tempo real, do presencial ao digital. O DOC e o TED foram etapas necessárias nessa jornada. O PIX é a etapa atual. O que vem depois, talvez o Drex, já está em construção.

Para mais sobre a infraestrutura de pagamentos, consulte nosso artigo sobre o Sistema de Pagamentos Brasileiro.


Este artigo tem caráter educativo e não constitui recomendação de investimento ou de utilização de qualquer serviço financeiro.