Títulos públicos são títulos de crédito emitidos pelo Tesouro Nacional para captar recursos junto ao mercado. Em termos simples: quando você investe em títulos públicos, está emprestando dinheiro ao governo federal — que se compromete a devolver o valor com juros em uma data futura.

A principal forma de pessoas físicas investirem em títulos públicos é pelo Tesouro Direto, um programa lançado em 2003 em parceria com a B3. Em junho de 2026, o estoque do programa atingiu R$ 262,5 bilhões, e mais de 34 milhões de investidores já se cadastraram.

O que são Títulos Públicos

Definição

Títulos públicos são instrumentos de dívida emitidos pelo governo federal para financiar suas atividades — déficits orçamentários, investimentos em infraestrutura, rolagem de dívida anterior e pagamento de juros sobre o estoque de dívida existente.

O conceito é análogo a um empréstimo bancário, mas em escala macroeconômica: o governo “toma emprestado” de investidores (pessoas físicas, bancos, fundos de investimento, investidores estrangeiros) e em troca emite um certificado — o título público — que formaliza a promessa de pagamento.

Dívida Bruta vs. Dívida Líquida

Dois indicadores são fundamentais para avaliar a saúde fiscal do país:

Indicador O que mede Valor (dez/2025)
DBGG (Dívida Bruta do Governo Geral) Total de compromissos do governo (federal + estaduais + municipais) 78,7% do PIB (R$ 10,02 trilhões)
DLSP (Dívida Líquida do Setor Público) DBGG descontando ativos (reservass internacionais, títulos em poder de órgãos públicos) 65,3% do PIB (R$ 8,31 trilhões)

Fonte: Banco Central do Brasil, Estatísticas Fiscais (jan/2025); Estadão (jan/2026).

A diferença é significativa: a dívida líquida é ~13 p.p. menor porque o Brasil possui ativos relevantes, como as reservas internacionais (superiores a US$ 350 bilhões) e títulos públicos detidos por fundos de pensão e previdência social.

Por que o governo se endivida?

O governo se endvida por três motivos principais:

  1. Financiar déficits orçamentários: quando as despesas superam as receitas (o que ocorre sistematicamente no Brasil desde 2014)
  2. Rolar dívida existente: quando títulos antigos vencem, o governo emite novos para pagar os antigos
  3. Manter reservas de liquidez: o Banco Central usa títulos públicos em operações compromissadas para controlar a liquidez da economia e manter a Selic na meta

Referencial teórico: sustentabilidade da dívida

Equação de solvência

A sustentabilidade da dívida pública é avaliada pela equação de solvência (Blanchard, 1990; Grassi, 2020):

$$d_{t+1} = \frac{1+r}{1+g} \times d_t - s_t$$

Onde:

  • \(d_t\) = relação dívida/PIB no período \(t\)
  • \(r\) = taxa real de juros sobre a dívida
  • \(g\) = taxa de crescimento real do PIB
  • \(s_t\) = superávit primário/PIB

Para que a dívida seja estável (razão constante ao longo do tempo), é necessário que:

$$r < g \quad \text{(condição de estabilidade)}$$

Ou, equivalentemente, que o superávit primário compense o diferencial entre juros e crescimento:

$$s = \frac{r - g}{1 + g} \times d$$

O problema do Brasil: \(r > g\)

No Brasil, a taxa real de juros sobre a dívida historicamente supera a taxa de crescimento do PIB:

Indicador 2024 2025 (previsão)
Taxa real de juros da dívida ~6,2% a.a. ~8,0% a.a.
Crescimento real do PIB 3,4% 2,2%
Diferencial (r - g) +2,8 p.p. +5,8 p.p.

Fonte: IFI, Relatório de Acompanhamento Fiscal (dez/2025).

Com \(r > g\), a dívida tende a crescer mesmo com superávit primário, a menos que o superávit seja suficientemente grande para compensar o diferencial. O cálculo da IFI mostra que, para estabilizar a DBGG em 78,7% do PIB, seria necessário um superávit primário de ~1,7% do PIB — mas o Brasil registrou déficit primário de 0,43% do PIB em 2025.

Limites internacionais

Reinhart & Rogoff (2009), em This Time Is Different, argumentaram que dívidas públicas acima de 90% do PIB estão associadas a menor crescimento econômico. Embora a metodologia tenha sido contestada (Herndon, Ash & Pollin, 2013), o alerta sobre níveis elevados de endividamento continua relevante.

O Brasil, com DBGG de 78,7% (dez/2025), está abaixo desse limiar, mas em trajetória ascendente: a IFI projeta que a dívida pode atingir 101,3% do PIB em 2035 no cenário base, e o Tesouro Nacional projeta 82,5% do PIB ao fim do governo atual (G1, nov/2025).

O Programa Tesouro Direto

Histórico

O Programa Tesouro Direto foi lançado em 20 de janeiro de 2003, com o objetivo de democratizar o acesso ao mercado de títulos públicos. Antes disso, apenas grandes investidores institucionais e bancos participavam dos leilões de títulos do governo.

Números do programa (dez/2025)

Indicador Valor Variação
Estoque total R$ 213,2 bilhões (dez/2025) +35,9% vs 2024
Estoque (jun/2026) R$ 262,5 bilhões +45,5% vs jun/2025
Investidores com saldo 3,4 milhões +14% no ano
Investidores cadastrados 34,2 milhões +10,35% vs 2024
Novos cadastrados em 2025 3.213.100
Investimentos dez/2025 R$ 9,48 bilhões 2º maior da série
Resgates dez/2025 R$ 3,53 bilhões
Emissão líquida dez/2025 R$ 5,95 bilhões Maior da série

Fonte: Balanço do Tesouro Direto, Tesouro Nacional (jan/2026); CNN Brasil (jan/2026).

Evolução do estoque do Tesouro Direto de 2015 a 2026
Evolução do estoque do Tesouro Direto (R$ bilhões). Crescimento contínuo desde 2020, acelerado pela alta de juros. Fonte: Tesouro Nacional.

Como funciona

O Tesouro Direto funciona como um leilão secundário regulamentado:

  1. O Tesouro Nacional emite títulos públicos em leilões abertos (operações com instituições financeiras — dealers)
  2. Uma fração desses títulos é disponibilizada para pessoas físicas via o sistema do Tesouro Direto
  3. O investidor acessa pela internet, através de uma corretora de valores autorizada, e escolhe o título, quantidade e taxa
  4. O Tesouro Nacional faz recompras diárias, garantindo liquidez — o investidor pode vender seus títulos a qualquer dia útil

Investimento mínimo: R$ 30,00 (fração de 0,01 título) Investimento máximo: R$ 1.000.000,00 por mês

Os 5 títulos disponíveis

Visão geral

Título Sigla Indexador Risco Liquidez Ideal para
Tesouro Selic LFT Taxa Selic Muito baixo D+1 (recompra) Reserva de emergência, curto prazo
Tesouro Prefixado LTN Taxa fixa Médio (marcação) D+1 Queda de juros, curto/médio prazo
Tesouro Prefixado s/ Semestrais NTN-F Taxa fixa Médio-alto D+1 Fluxo de caixa prefixado
Tesouro IPCA+ NTN-B Principal IPCA + taxa Médio-alto D+1 Proteção inflação, longo prazo
Tesouro IPCA+ c/ Semestrais NTN-B IPCA + taxa Alto D+1 Renda periódica, aposentadoria

Tesouro Selic (LFT)

O título mais conservador do programa. Sua remuneração acompanha diariamente a taxa Selic acumulada. Não sofre oscilações significativas de preço — é considerado o investimento de menor volatilidade do mercado brasileiro.

  • Risco: Praticamente zero de perda nominal (não há marcação a mercado relevante)
  • Liquidez: Recompra diária pelo Tesouro (D+1)
  • Tributação: IR regressivo (22,5% a 15%)
  • Ideal para: Reserva de emergência, substituto de poupança, aplicação de curto prazo

Tesouro Prefixado (LTN)

O investidor garante no momento da compra a taxa de juros que receberá ao final. Se a taxa for 14,5% a.a. e o prazo for 2 anos, o investidor saberá exatamente quanto receberá — desde que segure até o vencimento.

  • Risco: Marcação a mercado — se as taxas subirem após a compra, o preço do título cai. Um resgate antecipado pode gerar prejuízo.
  • Liquidez: Recompra diária, mas com possibilidade de perda
  • Ideal para: Investidores que acreditam na queda da Selic e querem travar taxas altas

Tesouro Prefixado com Juros Semestrais (NTN-F)

Similar ao LTN, mas com pagamento semestral de juros (cupons). O investidor recebe a cada 6 meses um percentual da taxa contratada, e no vencimento recebe o valor investido + último cupom.

  • Risco: Maior sensibilidade à marcação a mercado (prazos mais longos)
  • Liquidez: Recompra diária
  • Ideal para: Investidores que precisam de renda periódica (aposentados, renda complementar)

Tesouro IPCA+ (NTN-B Principal)

Protege o investidor contra a inflação. A remuneração é composta pela variação do IPCA + uma taxa real fixada no momento da compra. Se o IPCA for 5% e a taxa real for 6%, o rendimento total é ~11,3% nominal (juros compostos).

$$i = IPCA + r$$

Onde \(i\) é a taxa nominal, \(IPCA\) é a inflação acumulada e \(r\) é a taxa real contratada.

  • Risco: Marcação a mercado significativa em prazos longos (15, 20, 30 anos)
  • Liquidez: Recompra diária, mas com volatilidade de preço
  • Ideal para: Proteção de longo prazo contra inflação, planejamento previdenciário

Tesouro IPCA+ com Juros Semestrais (NTN-B)

Combina proteção contra inflação com fluxo de caixa semestral. O investidor recebe a cada 6 meses a correção inflacionária acumulada + juros semestrais, e no vencimento recebe o valor investido corrigido + último cupom.

  • Risco: O mais volátil do programa (juros longos + marcação)
  • Liquidez: Recompra diária
  • Ideal para: Aposentados que precisam de renda periódica protegida da inflação

Composição do estoque

Por indexador (dez/2025)

Indexador Participação Valor
IPCA (NTN-B e NTN-B Principal) 50,2% ~R$ 107 bi
Selic (LFT) 37,2% ~R$ 79,3 bi
Pré-fixado (LTN e NTN-F) 12,6% ~R$ 26,9 bi

Fonte: Balanço do Tesouro Direto, CNN Brasil (jan/2026).

Composição do estoque do Tesouro Direto por indexador em dezembro de 2025
Composição do estoque do Tesouro Direto por tipo de indexador (dez/2025). Títulos IPCA dominam com 50,2%. Fonte: Tesouro Nacional.

Por prazo de vencimento (dez/2025)

Prazo Percentual Valor
Até 1 ano 11,2% R$ 23,8 bi
1 a 5 anos 43,1% R$ 91,9 bi
Acima de 5 anos 45,7% R$ 97,5 bi

A concentração em vencimentos de médio e longo prazo (88,8%) reflete a estratégia do Tesouro de alongar o perfil de vencimento da dívida, reduzindo o risco de rolagem.

Custos e tributação

Custos

Custo Valor Observação
Custódia B3 0,30% a.a. Debitada semestralmente
Corretagem 0% a 0,50% a.a. Varia por corretora; muitas não cobram
Imposto de Renda 22,5% a 15% Tabela regressiva (ver abaixo)

Isenção: isentos de IOF e de taxa de corretagem na compra.

Tabela regressiva de IR

Prazo da aplicação Alíquota de IR
Até 180 dias 22,5%
De 181 a 360 dias 20,0%
De 361 a 720 dias 17,5%
Acima de 720 dias 15,0%

O IR é retido na fonte no momento do resgate ou vencimento. Para títulos com juros semestrais (NTN-B e NTN-F), o IR é retido sobre os cupons pagos.

Simulação: R$ 10.000 em 3 cenários

Título Taxa contratada Prazo Rent. bruta IR Rent. líquida
Tesouro Selic 14,90% (Selic) 1 ano 14,90% 20,0% 11,92%
Tesouro Prefixado 14,50% a.a. 2 anos 32,03%* 15,0% 27,23%
Tesouro IPCA+ IPCA 5% + 6% real 5 anos ~63,86%** 15,0% 54,28%

*Juros compostos: (1,145)² - 1 = 32,03% **Considerando IPCA acumulado de ~27,6% em 5 anos e taxa real de 6% a.a.

Riscos

1. Risco de crédito (soberano)

Títulos públicos são lastreados pelo governo federal, que tem poder de tributação e emissão monetária. O risco de calote é considerado muito baixo, mas não nulo. Países como Argentina, Grécia e RDJ já calotizaram dívida soberana.

No Brasil, o risco é monitorado por agências internacionais (S&P, Moody’s, Fitch) que atribuem ratings de investimento (investment grade) ao país.

2. Risco de marcação a mercado

Este é o risco mais relevante para o investidor pessoa física. Quando a taxa Selic sobe, o preço de títulos prefixados e IPCA de longo prazo cai — pois novos títulos passam a oferecer taxas mais atrativas, desvalorizando os antigos.

Exemplo prático: Se você comprou um Tesouro Prefixado a 14% a.a. e a taxa de mercado subiu para 16% a.a., o valor de mercado do seu título cai. Se precisar resgatar antes do vencimento, receberá menos do que aplicou.

O Tesouro Selic é o único título com volatilidade desprezível — por isso é indicado para reserva de emergência.

3. Risco de inflação

Afeta apenas títulos prefixados (LTN e NTN-F). Se a inflação superar as expectativas, o rendimento real dos prefixados será menor que o esperado. Títulos IPCA+ protegem contra esse risco.

4. Risco de liquidez

Embora o Tesouro faça recompras diárias, em momentos de crise financeira a liquidez pode se deteriorar. O investidor pode precisar vender o título a um preço inferior ao valor justo.

Títulos Públicos no contexto da dívida brasileira

Evolução da DBGG

A Dívida Bruta do Governo Geral (DBGG) é o principal indicador de endividamento público:

Ano DBGG/PIB Evento
2013 51,5% Mínimo da série
2014 58,3% Início da recessão
2015 65,5% Crise fiscal
2016 69,8% Impeachment, fraca recuperação
2017 73,7% Austeridade fiscal
2018 75,1% Eleições
2019 74,2% Teto de gastos
2020 87,6% Pandemia (pico da série)
2021 80,5% Reversão emergencial
2022 73,7% Auxílio Brasil, eleições
2023 76,5% Novo governo, juros altos
2024 78,6% Juros altos persistentes
2025 78,7% Déficit primário R$ 55 bi

Fonte: Banco Central, IFI/Senado, Estadão.

Evolução da Dívida Bruta do Governo Geral (DBGG) como percentual do PIB de 2013 a 2025
Evolução da DBGG/PIB (2013–2025). O pico de 87,6% em 2020 reflete os gastos da pandemia. Desde então, a dívida permanece em trajetória ascendente. Fonte: BCB, IFI.

O peso dos juros

Os juros nominais sobre a dívida são o principal motor de crescimento do endividamento:

Indicador 2023 2024 2025 (est.)
Juros nominais (% PIB) 6,56% 8,05% ~8,5%
Juros nominais (R$ bilhões) ~718 ~950 ~1.000
Déficit primário (% PIB) -2,28% -0,40% -0,43%
Resultado nominal (% PIB) -8,84% -8,45% ~-9,0%

Fonte: Banco Central, Estatísticas Fiscais (jan/2025).

Cada ponto percentual de alta na Selic, mantido por 12 meses, eleva a dívida em R$ 55,6 bilhões (0,44% do PIB), segundo o Banco Central. Com a Selic em 14,90% (set/2026), o custo financeiro da dívida é altíssimo.

Projeções

Fonte Cenário Projeção DBGG
IFI/RAF Dez/2025 Cenário base 101,3% do PIB em 2035
IFI/RAF Dez/2025 Cenário pessimista 124,9% do PIB em 2035
Tesouro Nacional (nov/2025) Projeção governo 82,5% do PIB ao fim do mandato

A divergência entre as projeções reflete diferentes pressupostos sobre crescimento, juros e ajuste fiscal. O que todos concordam é que, sem superávit primário consistente, a dívida continuará em trajetória ascendente.

Como investir

Passo a passo

  1. Escolha uma corretora autorizada a operar no Tesouro Direto (a maioria das grandes corretoras participa)
  2. Faça o cadastro na corretora (documentos: CPF, RG, comprovante de residência)
  3. Acesse o sistema do Tesouro Direto (via site ou app da corretora)
  4. Escolha o título e a quantidade (mínimo R$ 30,00)
  5. Confirme a ordem — o valor é debitado da conta da corretora
  6. Acompanhe seus investimentos pelo painel do Tesouro Direto

Liquidez

O Tesouro Nacional faz recompras diárias de títulos para garantir liquidez. Isso significa que você pode vender seus títulos a qualquer dia útil, sem precisar esperar o vencimento. Porém:

  • Tesouro Selic: recompra sem perda significativa (volatilidade ~0)
  • Prefixados e IPCA: recompra com possibilidade de ganho ou perda por marcação a mercado

Qual título para cada perfil

Perfil Título recomendado Prazo sugerido
Conservador (reserva de emergência) Tesouro Selic Indeterminado
Moderado (curto/médio prazo) Tesouro Prefixado (2-4 anos) 2 a 4 anos
Moderado (proteção inflação) Tesouro IPCA+ (5-10 anos) 5 a 10 anos
Arrojado (longo prazo, alto retorno) Tesouro IPCA+ (20-30 anos) 20+ anos
Renda periódica (aposentados) NTN-B ou NTN-F com semestrais Conforme necessidade

Nota de atualização

Nota de atualização (set/2026): Todos os dados de mercado referem-se a informações oficiais do Tesouro Nacional (Balanço do Tesouro Direto), Banco Central (Estatísticas Fiscais) e IFI (Relatório de Acompanhamento Fiscal). A taxa Selic referida (14,90%) é de set/2026. Para taxas e preços atualizados, consulte tesourodireto.com.br e tesourotransparente.gov.br.


Títulos públicos são a pedra angular do sistema financeiro brasileiro: são os investimentos de menor risco do país, servem como referência para todos os outros ativos de renda fixa e representam a principal forma de o governo se financiar. Com R$ 262,5 bilhões em estoque e 34 milhões de investidores, o Tesouro Direto democratizou o acesso a esses papéis.

Para aprofundar, leia também:


Este artigo tem caráter educativo e não constitui recomendação de investimento. Antes de investir, consulte um profissional habilitado e considere seus objetivos, perfil de risco e horizonte temporal. Dados de mercado sujeitos a alterações.