As buscas por “caixinhas” e “cofrinhos” dos bancos cresceram 297% em dois anos — e as perguntas ficaram mais espertas: não é mais “o que é”, e sim “quanto rende R$ 1.000 na caixinha X contra a Y”. Este artigo responde com método: o que há por trás da caixinha, como calcular o rendimento líquido e quando ela vence (ou perde) contra CDB, poupança e Tesouro Direto.

Nota de atualização (set/2026): percentuais do CDI e condições variam por banco e mudam com frequência — os números deste artigo são simulações ilustrativas com CDI de 14% a.a. para ensinar o método. Antes de aplicar, confira o % do CDI vigente no app do seu banco.

O que a caixinha é por trás: RDB ou CDB com outro nome

A caixinha é uma embalagem organizacional: um espaço separado no app, com nome e meta (“viagem”, “entrada do carro”, “reserva”), cujo dinheiro é aplicado automaticamente. Na maioria das instituições, o lastro é um RDB (Recibo de Depósito Bancário) ou um CDB emitido pelo próprio banco, remunerado a um percentual do CDI — o CDI é a taxa dos empréstimos entre bancos, que anda colada à Selic.

Três consequências seguem direto dessa estrutura. Primeira: o rendimento da caixinha é o rendimento do lastro — 100% do CDI na caixinha é igual a 100% do CDI no CDB direto, nem um centavo a mais. Segunda: o risco é o risco do banco emissor, mitigado pela garantia do FGC quando o lastro é RDB ou CDB (teto de R$ 250 mil por CPF por instituição). Terceira: o resgate volta para a conta em geral em D+0, no mesmo dia — característica essencial para dinheiro de emergência.

RDB × CDB: o lastro explicado em um minuto

RDB e CDB são primos: nos dois, você empresta dinheiro ao banco e recebe juros. A diferença prática está na liquidez — o CDB pode ser negociado antes do vencimento (com o banco recomprando), enquanto o RDB é intransferível e só sai no vencimento ou nas condições contratadas. Para a caixinha, essa distinção quase some: o banco estrutura o lastro para resgate imediato, então o que você sente é “rendimento diário + resgate na hora”.

O ponto que importa: lastro bancário = cobertura do FGC. RDB e CDB estão na lista de produtos garantidos, ao lado da poupança e de LCI/LCA. Se a caixinha de algum banco usar outro lastro (um fundo, por exemplo), a garantia muda de figura — por isso o regulamento da caixinha, não o apelido, é o documento que vale. O estudo sobre CDB detalha carência, tributação e FGC produto por produto.

O CDI em um minuto: a régua de tudo

Toda comparação deste artigo usa o CDI como régua — então vale fixar o conceito: o CDI (taxa DI) é a taxa dos empréstimos de curtíssimo prazo entre bancos, calculada sobre as operações de um dia e expressa em % ao ano, base 252 dias úteis. Ela anda colada à Selic, geralmente uma fração abaixo: com a Selic em 14% ao ano, o CDI ronda os 14% menos alguns centésimos.

Quando a caixinha promete “100% do CDI”, ela promete acompanhar essa taxa cheia; “80% do CDI” significa 80% dela. E atenção à pegadinha clássica: percentual do CDI não é taxa ao ano — 100% do CDI com CDI a 14% rende 14% ao ano; com CDI a 8%, rende 8%. Comparar caixinhas pelo percentual é correto; comparar rentabilidade passada em reais sem olhar o CDI da época é enganoso.

Caixinhas em números: percentual do CDI, IR regressivo de 22,5% a 15%, FGC até R$ 250 mil e resgate imediato
As quatro referências antes de guardar dinheiro na caixinha. Fontes: RFB, FGC e cada banco.

A conta do rendimento: % do CDI, IR e IOF

O rendimento bruto segue os juros compostos sobre o CDI contratado:

$$M = P \times (1 + i_{CDI} \times percentual)^n$$

onde \(P\) é o valor guardado, \(i_{CDI}\) o CDI do período e \(percentual\) o contratado (100% = 1,0). Sobre o ganho incidem dois tributos. O IR regressivo, retido na fonte: 22,5% até 180 dias, 20% de 181 a 360, 17,5% de 361 a 720 e 15% acima de 720 dias. E o IOF para resgates nos primeiros 30 dias, regressivo de 96% do imposto no 1º dia até zero no 30º — na prática, resgatar na primeira semana come quase todo o rendimento.

Exemplo com a conta feita: R$ 1.000 guardados por 2 anos a 100% de um CDI de 14% a.a. O bruto é \(1000 \times 1{,}14^2 \approx\) R$ 1.299,60; o ganho de R$ 299,60 sofre IR de 15% (prazo acima de 720 dias), ou R$ 44,94; o líquido final é R$ 1.254,66. Troque o prazo para 3 meses e o mesmo dinheiro pagaria 22,5% de IR — R$ 67,41 — terminando em R$ 1.232,19. Tempo na caixinha é imposto menor: a diferença entre resgatar com 3 meses e 2 anos, neste exemplo, é de mais de R$ 22 a cada R$ 1.000.

O IOF merece a tabela completa, porque é ele que pune o giro curto. Alíquota sobre o rendimento conforme os dias de aplicação (RFB):

Dias 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10
IOF % 96 93 90 86 83 80 76 73 70 66
Dias 11 12 13 14 15 16 17 18 19 20
IOF % 63 60 56 53 50 46 43 40 36 33
Dias 21 22 23 24 25 26 27 28 29 30
IOF % 30 26 23 20 16 13 10 6 3 0

Leia assim: resgatou no 10º dia, o IOF come 66% do IR devido — e o IR devido já seria o cheio da sua faixa de prazo. A partir do 30º dia, IOF zero para sempre. Moral: caixinha com menos de um mês é cofre furado.

Simulação de R$ 1.000 por 2 anos: caixinha e CDB terminam em R$ 1.255, Tesouro Selic em R$ 1.253 e poupança em R$ 1.141
Caixinha e CDB empatam porque são o mesmo produto; a poupança fica para trás. Simulação ilustrativa.

Anúncio

Caixinha × CDB × poupança × Tesouro: a tabela honesta

Critério Caixinha 100% CDI CDB direto 100% CDI Poupança Tesouro Selic
Rendimento 100% do CDI 100% do CDI 0,5% a.m. + TR Selic + pequeno deságio
IR Regressivo 22,5→15% Regressivo 22,5→15% Isenta Regressivo 22,5→15%
Liquidez D+0 Diária ou no vencimento Imediata (aniversário) D+1 útil
FGC Sim (lastro RDB/CDB) Sim Sim Não (risco soberano)
R$ 1.000 em 2 anos (líquido, simulação) R$ 1.255 R$ 1.255 R$ 1.141 R$ 1.253
Melhor para Organizar por objetivo Prazo e taxa travados Simplicidade absoluta Valores altos, longo prazo

Três leituras da tabela. Primeira: caixinha e CDB empatam por construção — quem promete “render mais que CDB” com o mesmo % do CDI está vendendo embalagem. Segunda: a poupança perde com Selic alta porque sua regra (0,5% ao mês + TR) entrega ~6,8% ao ano isentos contra ~14% tributados — só volta ao jogo se a Selic cair para perto de 8,5%. Terceira: o Tesouro Direto empata no rendimento e ganha em valores altos (sem teto de FGC para se preocupar), mas liquida em D+1 — para a reserva que precisa estar disponível hoje, D+0 vence.

Como ler a oferta de cada banco: o checklist de 5 itens

Com lastro e CDI entendidos, qualquer oferta se julga em um minuto:

  1. Lastro: RDB ou CDB do próprio banco? Está escrito no regulamento. Se for outra estrutura, a garantia do FGC precisa ser confirmada à parte.
  2. % do CDI: 100% é o padrão bom; abaixo disso, anote quanto você abre mão por ano (20 pontos de CDI sobre R$ 10 mil a 14% são R$ 280 ao ano).
  3. Resgate: imediato (D+0) ou com carência? Caixinha com carência de 30 dias não serve para reserva.
  4. Tributação: IR regressivo padrão + IOF em 30 dias — igual para todas; desconfie de promessa de “sem imposto” (só a poupança e alguns isentos têm isso, e a caixinha não é um deles).
  5. Limites: valor mínimo, teto remunerado e % válido só para novos depósitos? Condições promocionais expiram — anote a data.

Aplique o checklist em dois cenários típicos. Cenário A: caixinha a 100% do CDI, D+0, lastro em RDB com FGC — é a caixinha ideal, indistinguível de um bom CDBDIÁRIO. Cenário B: cofrinho a 80% do CDI — em R$ 5 mil por um ano a 14%, rende R$ 560 brutos contra R$ 700 da opção A; após IR de 17,5–20%, a diferença líquida passa de R$ 110. Nenhuma interface bonita cobre esse buraco: oferta de caixinha se compara no percentual, não na cor do app.

Quando a caixinha vence e quando ela perde

Situação Veredito Por quê
Reserva de emergência Vence D+0 + % do CDI + FGC; separe uma caixinha só para ela
Objetivo datado (viagem, carro) Vence Nome, meta e separação criam disciplina sem custo
Caixinha abaixo de 100% do CDI Perde Mesmo dinheiro renderia mais no CDB direto a 100%
Prazo certo acima de 1 ano Empata/pende ao CDB CDB com prazo pode pagar mais de 100% do CDI
Valores altos de longo prazo Pende ao Tesouro Sem teto de garantia para administrar; mesma ordem de rendimento
Dinheiro parado sem objetivo Neutro Rende, mas objetivo sem nome vira gasto — dê um nome à caixinha

A regra de bolso: caixinha boa é a de 100% do CDI com resgate imediato e lastro com FGC. Tudo abaixo disso exige justificativa — e “é do meu banco” não é justificativa, porque o CDB direto do mesmo banco costuma pagar igual ou mais.

Caixinha no Imposto de Renda: como declarar

Todo ano, o banco envia o informe de rendimentos com o saldo da caixinha em 31 de dezembro e os rendimentos pagos no ano, já líquidos do IR retido na fonte. Na declaração, o saldo vai à ficha de Bens e Direitos (grupo de aplicações financeiras) e os rendimentos à ficha de rendimentos sujeitos à tributação exclusiva — você não calcula nada, só transcreve.

O erro comum é declarar apenas a conta-corrente e esquecer as caixinhas: como o dinheiro saiu da conta para o RDB/CDB do lastro, ele aparece no informe em rubrica própria. Na malha fina, “esqueci a caixinha” não é justificativa — baixe o informe no app em março e confira rubrica por rubrica antes de transmitir.

As quatro armadilhas das caixinhas

Armadilha 1: o % do CDI que ninguém lê. Caixinhas antigas ou promocionais podem pagar 80%, 50% — ou só a partir de certo saldo. O app mostra o percentual; se não mostrar, presuma o pior e confirme no regulamento. Diferença de 100% para 80% do CDI, em 2 anos no exemplo, é de R$ 1.255 contra R$ 1.199 — R$ 56 evaporados por falta de uma olhada.

Armadilha 2: o giro de 30 dias. Caixinha usada como conta de passagem — entra e sai toda semana — paga IOF cheio e rende quase zero. Dinheiro de giro fica na conta; caixinha é para dinheiro que dorme pelo menos um mês.

Armadilha 3: a caixinha-reserva misturada. Uma caixinha só chamada “guardados”, sem divisão entre emergência e objetivos, falha nos dois papéis: você resgata a emergência para a viagem ou gasta a viagem na emergência. O custo da caixinha é zero — crie uma por objetivo, começando pela reserva de emergência.

Armadilha 4: rentabilidade passada vendida como promessa. Prints de “rendi R$ X este mês” escondem o CDI da época e o prazo: R$ 200 em um mês com Selic a 14% viram R$ 120 com Selic a 8%, no mesmo % do CDI. Ao comparar relatos, converta tudo para % do CDI e prazo — o resto é marketing. E promoções de “% turbinado por 3 meses” voltam ao percentual base depois: anote a data de validade da taxa no dia em que guardar.

Conclusão: embalagem ótima, desde que cheia do produto certo

Caixinhas e cofrinhos são uma das melhores invenções comportamentais dos bancos: transformam “investir” em “guardar para algo”, sem burocracia e sem valor mínimo relevante. O conteúdo, porém, continua sendo renda fixa comum — e renda fixa comum se julga por % do CDI, IR, liquidez e garantia. Confira os quatro, dê nome às suas caixinhas e deixe a disciplina trabalhar. Daqui a um ano, a diferença entre a caixinha certa e a errada não estará na interface: estará no extrato.

Para continuar: monte a sua reserva de emergência na caixinha certa e entenda o lastro por dentro no estudo sobre CDB.

Este artigo é educativo e não é recomendação de aplicação: percentuais do CDI e condições mudam por banco e por data — confira sempre o regulamento vigente no app antes de guardar.